UM OLHAR

OS AMIGOS DO JORGE

Falar de um amigo, é ao mesmo tempo, sempre fácil e muito difícil. Ao abdicarmos do “fácil”, evitamos o discurso circunstancial ganhando assim espaço para o tratamento da parte mais complicada da questão, ou seja, a razão pela qual investimos parte do nosso tempo na contemplação das mais diversas expressões da alma criativa.

Ao encontrarmos a obra do Jorge, rodeamo-nos do trabalho de um homem, que vos digo, é saído de outras eras! Sem complexos vanguardistas, prossegue pelo caminho que evidentemente teria de escolher. Os seus quadros, são estados de uma alma carregada de sonho e desejo, de uma dramática encenação, de um fascinante e vigoroso conflito entre espírito e a razão, de satisfação, de ironia e glória, de domínio do caos, e também “talvez”, de aquilo a que chama, a sua saudade.

Saudade de tempos ainda não vividos e de personagens e objectos do seu fantástico imaginário que faz questão de retractar e recriar de modo sincero forte e admirável.


- Gianni Nastasi

Sempre imaginei um artista como alguém com um insistente desejo de permanecer no estético, como alguém cuja vida quotidiana, a intimidade da sua casa, o seu pensamento e a atitude refletissem uma espécie de continuidade natural com a arte. É assim que vejo o Jorge Sistelo. É assim que me lembro dele desde há muitos anos.

O decorrer quotidiano da sua vida mistura-se com o estético. Sempre por perto as telas, os pincéis, o cheiro a tinta; sempre a presença das obras de arte; sempre uma atitude de procura estética. Lembro-me, há algum tempo atrás, de ele me ter dito que nunca sabia (ou melhor, que não era ele que sabia) quando estava concluída a obra que tinha em mãos. E eu diria que, provavelmente, também não saberá quando é que ela começou.

Há um poema do Alexandre O´Neill, de que gosto muito, que pergunta: “Onde começa um poema? Quando começa um poema? No espaço quadrado da folha de papel? No momento em que pegas na caneta? Ou no espaço redondo em que te moves?”.

O “espaço redondo” do Jorge é o da Arte, é aí que ele se move, na atitude básica de quem está a Ser porque está a Criar.


- Rosário Caetano